quarta-feira, 15 de Maio de 2013

ODEIO O MEU PAI, MAS TAMBÊM NÃO AMO A MINHA MÃE

ODEIO O MEU PAI, MAS TAMBÊM NÃO AMO A MINHA MÃE (Conto) O cheiro intenso a caril e cebolas torradas continuava ainda no ar da casa, de três quartos, sala, cozinha, WC e uma varanda que dava para um vasto arvoredo, sita na zona de Viana; colorida e decorada com motivos religiosos, como ela gostava. Julgava-se filha de Deus, e sempre que ouvisse falar dos justos, ela julgava-se uma dessas espécies, incapazes de fazer mal à uma mosca e entortar o mundo. Dona Olga do Carmo preparava-se para rezar o terço, como vinha fazendo ao longo dos anos antes de dormir. Católica ferrenha, gostava de acreditar que Deus ouvia todas suas orações com prioridade, apesar de divorciada, e haver ganho pelos homens um ódio secreto, que acreditava friamente, perdoável aos olhos da divina providência__ e aplaudia-se a si mesma por isso. O amor de Deus era infinitamente bom; desde que castigasse aos outros apenas e não a ela. Acabava de colocar o terço por cima da Bíblia sagrada, quando uma mensagem fez cintilar o visor do seu telemóvel de marca SAMSUNG, oferta do padre Jacob Tchitue, com o qual falava prolongadamente sobre Deus e as suas criaturas, em horas impróprias, facto que já era motivo de falatórios em surdina no seio da comunidade paroquial. “ligue o canal 1 da TPA urgente!!!”. Sobressaltada, esfregou as mãos meio húmidas na saia axadrezada, e com presteza, ligou o televisor de marca “LG”. Não tinha ainda se recostado no sofá, dando repasto às suas ainda suculentas nádegas e quarentona, que o padre mal conseguia fingir apreciar, quando os seus olhos se arregalaram, ao passo que o coração começava a bombear sangue em velocidade descontrolada. No ecrã da TV, a moçoila de 24 anos parecia firme, embora denotasse uma gritante instabilidade emocional. Os seus olhos, ainda guardavam aquele branco da infância, que a mãe aprendera a admirar sozinha. A sua boneca, a sua princesa, que jamais quisera partilhar com mais ninguém estava ali, onde ela sempre quisera: na TV. O sonho de Dona Olga sempre fora que a sua filha fosse “uma grande mulher. Ministra, Engenheira, Economista…ou quando menos, apresentadora do telejornal. O seu desaparecimento injustificado, que se arrastara até aquele dia, fora para si um grande golpe. Bom, pelo menos ela estava viva. Chegara inclusive a pensar que ela tivesse sido raptada pelo próprio ex marido, António Seabra, pelo qual aprendera a nutrir um ódio de morte, embora tivesse sido ela própria a causadora da separação, de tanto que as suas relações com o padre Jacob Tchitue coruscaram a intimidade do casal. “ finalmente ela vai fazer o que sempre lhe pedi. Vai bombardear aquele sacana do António”__ pensava ela, enquanto se deliciava com a imagem da filha, a sobressair sem maquilhagem no pequeno e mágico ecrã, por onde se expunham as celebridades. A moça, Daniela Tchitue, como quisera e impusera dona Olga, ao invés do nome do ex-marido trajava um vestido azul-ciano, não usava brincos nem jóias caras. O cameraman ajeitou as lentes e a imagem foi repuxada para frente _ Eu chamo-me Daniela Filha de Deus…conforme consta do meu novo registo que requeri, como m’o confere a lei, uma vez sendo adulta. Tambêm já me chamei Daniela Tchitue, como quis a minha mãe, (Tchitue, apelido de um padre que fora motivo da separação dos meus pais)…Pessoalmente, bem podia chamar-me Daniela Seabra (Seabra, nome de um pai que foi privado da minha presença, mas que segundo acho, ele bem poderia ter lutado mais, para me poder brindar com alguns momentos do seu carinho)…_ em todas as casas, famílias inteiras, pais de família, esposas, sociólogos, psicólogos etc. Seguiam atentamente a entrevista. Dona Olga, que esperava da parte da filha um ataque contra o seu ex-marido, procurava pelo seu terço às apalpadelas, como se através de rezas pudesse fazer a filha mudar o curso do tiro “ meu santo expedito, faça-a dizer as palavras certas”_ orava Dona Olga. Entretanto, a menina Daniela prosseguiu:… Hoje por hoje, tanto se me dá, Daniela ou Carla. A minha mãe sempre me usou como pedra de arremesso para vingar suas frustrações conjugais no meu pai. Nunca se importou com o que eu sentia. Ela teve pai. Mas nunca se importou que eu igualmente usufruísse dessa dádiva natural…_enquanto Dona Olga estremecia no sofá, apertando contra os dedos o terço, Daniela embrulhava os lábios vertendo lágrimas de sangue__...Mãe, se me estiveres a assistir neste momento, faço uma pergunta que nunca permitiste: alguma vez te importaste com o que eu sentia por dentro? A senhora imagina o impacto de ouvir todos os dias que o teu pai é um sacana de merda, um cão do caralho…o teu pai nem merece viver? Ele é e será para todos efeitos, meu pai. Ou então que me mostrasses outro; branco, preto, rico, pobre, mas que m’o mostrasses. Porque se esse Deus que dizes amar tanto, e que tanto te prende ao padre Jacob Tchitue quisesse que os filhos nascessem sem pai, as mulheres teriam dois sexos, para se complementarem a si mesmas. Se Deus quisesse que os filhos nascessem sem mãe, os homens teriam dois sexos e a possibilidade de engravidar. Tudo o que mais queria, enquanto me impingias do senhor padre, pelo qual até aprendi a sentir repulsa, era ouvir a voz do meu pai, dizer-me ao ouvido que…que...ele me ama!_ choros!_ mas tu foste... tão egoísta, achavas-me um artigo teu, ao qual pudesses manejar a bel prazer…enquanto isso, eu morria por dentro cada dia mais. Projetavas o meu futuro, sempre na perspectiva de vir a ser uma grande empresária, ministra, mas para com o poder financeiro ou intelectual que viesse adquirir, fazer frente ao meu pai, para o qual rogavas as mais depraves pragas para que caísse em ruína. E sem saberes, eu te odiava cada dia um pouco mais…E meu pai, não pense que te perdoo, pois acho que poderias ter lutado mais pela minha posse...poderias ter ido até às últimas consequências, para colocar um sorriso no meu rosto de criança. Um sorriso que me pudésseis cobrar na idade adulta…em suma, tudo o que eu queria, era ser uma criança normal, como as outras…vocês os dois não imaginam a dor de ser-se a única na escola que não tem pai…por isso, eu odeio o meu pai, tal como a minha mãe me ensinou a odiá-lo. Mas também não amo a minha mãe. E os padres são os piores para me ensinar a amá-los. EU ODEIO A TODOS ADULTOS QUE DEPOIS DE SEPARAREM USAM OS FILHOS COMO PÓLVORA PARA SE ATINGIREM UNS AOS OUTROS. NUTROS POR VÓS UM GRANDE DESPRESO.OS FILHOS NÃO SÃO OBJECTOS. E UM DIA CRESCEM PARA PENSAR POR SI MESMOS E COBRAR PELO USO QUE DELES SE FEZ! Fridolim Kamolakamwe, Luanda, aos 21 de Fevereiro de 2013
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